A saúde e a doença
Os números macro da economia portuguesa são, por estes dias, positivos, sobretudo no contexto da União Europeia: no segundo trimestre de 2026, o Produto Interno Bruto nacional cresceu 2,5% face ao mesmo período de 2025, enquanto a União Europeia avançou, no mesmo período, metade, precisamente 1,2%.
Quanto às previsões de crescimento do País em 2026 e 2027, os números variam consoante as instituições que as fazem: Governo, 2% para 2026; Banco de Portugal, 1,8% em 2026 e 1,6 em 2027; Comissão Europeia, 1,7% em 2026 e 1,8% em 2027. Estes números comparam com a previsão para o crescimento do PIB da União Europeia: 1,1% em 2026 e 1,4% em 2027.
Bons números, pois, em termos macro, que atestam saúde da economia portuguesa.
Há, porém, outros números: por exemplo, a taxa de inflação vai ultrapassar os 3% no fim do ano, situando-se nos 3,1%; os défices orçamentais estão de volta, com o Banco de Portugal a prever -4% em 2026 e -0,5% em 2027, enquanto o Conselho das Finanças Públicas estima -0,0% em 2026 e -0,4% em 2027, com um agravamento contínuo até 2030. Por sua vez, a estimativa do governo é de 0,0% em 2026.
Mas, para além dos indispensáveis números, bons e maus – cuja análise é imprescindível para um conhecimento profundo do País e da sociedade – importa salientar que os portugueses enfrentam hoje problemas gigantescos, como (e passe o lugar-comum) a saúde, a habitação, a justiça (nestes dias com “processos”, acusações e contra-acusações surreais…), a demografia (o rácio nascimentos/falecimentos, os problemas do envelhecimento, a sustentabilidade da segurança social), a energia, e muito, muito mais…
Depois, há a dependência de Portugal face ao exterior, questão preocupante e condicionante de decisões próprias. Um inquérito realizado pelo Banco de Portugal junto das empresas nacionais, citado por Francisco Melro nesta edição, indica que os empresários estão particularmente preocupados com os impactos da crise internacional.
Enfim, é bom registar os números macro que reflectem a saúde da economia portuguesa. Mas urge não esquecer os inúmeros casos de doença, cujos sintomas estão aí, à vista desarmada.
ARG