O reforço acelerado da despesa pública com a Defesa poderá ter um custo social elevado, traduzido em cortes profundos na Saúde, na Educação e nas prestações sociais, além de agravamento do défice e da dívida pública.
O reforço acelerado da despesa pública com a Defesa poderá ter um custo social elevado, traduzido em cortes profundos na Saúde, na Educação e nas prestações sociais, além de agravamento do défice e da dívida pública. A conclusão é do Fundo Monetário Internacional (FMI), que estima reduções reais até 25% nos apoios sociais, 26% na Saúde e 14% na Educação num horizonte de três anos, sempre que os governos optam por fortes aumentos nos gastos militares.
Segundo o Diário de Notícias, que cita um capítulo pré-publicado do novo World Economic Outlook a divulgar a 14 de Abril de 2026, o FMI analisou dados históricos de 1946 a 2024 relativos a dezenas de países, avançados e emergentes, concluindo que ciclos de expansão da despesa com Defesa conduzem, em regra, a uma deterioração significativa das contas públicas.
De acordo com o estudo, nos três anos subsequentes ao início de um “boom” na despesa militar, o défice orçamental agrava-se, em média, em cerca de 2,6 pontos percentuais do PIB, enquanto o rácio da dívida pública aumenta quase sete pontos percentuais do PIB face a países que não seguem essa trajetória. O FMI sublinha que estes aumentos são “financiados predominantemente através de endividamento público”, pressionando a sustentabilidade das finanças públicas.
O actual contexto internacional é apontado como exemplo desse ciclo de expansão. O FMI recorda que, em Junho de 2025, os membros da NATO comprometeram-se a elevar a despesa anual com Defesa e áreas relacionadas com segurança para 5% do PIB até 2035, mais do dobro da meta anterior de 2%. Portugal, que partiu de um nível mais baixo de investimento face a países como a Polónia, enfrenta agora maior pressão para cumprir as novas metas.
O Fundo conclui que, quando os aumentos da despesa militar são financiados por reorientação de verbas, verifica-se uma clara “substituição” da despesa social pela despesa com Defesa. Nas economias avançadas analisadas, a despesa primária não relacionada com Defesa diminui mais de 20% em termos reais — cerca de 2% do PIB — nos três anos seguintes ao reforço militar. A redução da despesa social ronda um ponto percentual do PIB e abrange áreas como proteção social, Saúde e Educação. O FMI alerta que esta opção pode ter “consequências sociais e distributivas relevantes a médio prazo”.
Ainda assim, o impacto varia consoante o contexto. Em cenários de guerra no próprio território, os ciclos de aumento da despesa em Defesa são seguidos por forte subida da dívida pública e contração real da despesa social. Já em tempos de paz, o Fundo admite que o reforço militar pode gerar efeitos positivos no PIB e, em média, não ser acompanhado por agravamento do rácio da dívida nem por cortes sociais. Ainda assim, a instituição liderada por Kristalina Georgieva sublinha que os decisores políticos devem ponderar cuidadosamente as opções de financiamento, tendo em conta os riscos orçamentais e sociais associados a uma corrida ao armamento.
Fonte: Executive Digest