A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, apelou hoje aos governos para restringirem os subsídios à energia, alertando que o aumento da dívida e dos custos de financiamento torna insustentável uma política de apoios demasiado generosa.
“Passámos por uma série de choques: a pandemia da covid-19, a guerra na Ucrânia, o choque inflacionista, o aumento abrupto das taxas de juro e, agora, o choque energético”, recordou Georgieva, numa entrevista à agência France-Presse (AFP) em Singapura.
Em cada um desses momentos, os governos apoiaram famílias e empresas através do aumento do endividamento e dos défices públicos, mas, segundo a responsável do FMI, essa estratégia deixou de ser sustentável devido à subida das taxas de juro e dos custos do crédito.
“Esta situação já não é sustentável”, afirmou, defendendo um “foco ainda mais restrito” nas ajudas à energia, numa altura em que vários países enfrentam níveis elevados de dívida pública.
Georgieva destacou também o papel dos bancos centrais no combate à inflação, apesar de reconhecer que a subida das taxas de juro penaliza o crescimento económico.
O aperto monetário “não favorece o crescimento e deve ser conduzido com grande prudência”, afirmou, mas advertiu que, sem uma resposta à subida dos preços, a inflação pode tornar-se “a principal ameaça para a população”, sobretudo por pesar mais sobre as famílias com menores rendimentos.
A diretora-geral do FMI apontou ainda a Inteligência Artificial (IA) como um dos fatores positivos para a economia mundial, devido ao forte investimento que está a gerar, mas alertou para os riscos de uma eventual perda de confiança no setor.
O FMI estima que a IA poderá acrescentar até 0,5 pontos percentuais ao crescimento mundial por ano, pelo que uma desaceleração do setor ou uma retirada de financiamento poderá ter efeitos à escala global e criar riscos para a estabilidade financeira, segundo Georgieva.
A responsável mostrou-se igualmente preocupada com as tensões nos mercados de dívida, numa altura em que as taxas de rendibilidade das obrigações soberanas dos Estados Unidos, Japão e países europeus estão sob pressão.
Entre os fatores apontados estão a inflação, as perspetivas para as taxas de juro dos bancos centrais e o aumento das emissões de dívida por parte das empresas ligadas à IA, que concorrem com os Estados pelo financiamento nos mercados.
Para Georgieva, a disciplina orçamental dos governos é, contudo, um dos elementos centrais para reduzir os riscos.
“É conveniente procurar reduzir a dívida, de modo a diminuir o custo do endividamento, e refletir sobre as formas de inspirar confiança nos mercados obrigacionistas”, afirmou.
Os mercados, acrescentou, precisam de ver um plano de consolidação orçamental a médio prazo que demonstre que a dívida pública não continuará a aumentar indefinidamente.
“Não se trata necessariamente de implementar esse plano de imediato, mas sim de oferecer uma visão clara sobre uma redução progressiva da dívida, demonstrando que se está preocupado com o défice”, sustentou.
Georgieva alertou ainda para os riscos associados ao fenómeno meteorológico El Niño, que está a provocar condições climáticas extremas e poderá agravar a inflação e a insegurança alimentar em vários países.
“Estamos muito preocupados com o El Niño, cuja intensidade é superior à média, e estamos preocupados com a segurança alimentar”, afirmou, referindo-se aos efeitos já sentidos na América Central e na Índia.
Na América Central, a seca está a provocar perdas nas colheitas e no gado, enquanto na Índia as perturbações na monção estão a afetar a produção agrícola.
O FMI está a preparar-se para apoiar os países mais vulneráveis caso o fenómeno provoque impactos severos, nomeadamente por financiamento externo, indicou Georgieva.
A responsável apelou ainda a uma resposta internacional “coordenada” para apoiar os países mais expostos a estes choques.
Fonte: LUSA